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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A morte de Daniela

Então a lua não surgiu e seus olhos flutuaram pelo negro e imenso céu. Ela estava saindo da escola, sorria como se a dor não existisse, se fazia forte para não dar explicações e não dava explicações porque queria estar forte. Mesmo com o seu interior estraçalhado pela dor, ela sorria e fingia estar bem. Todos acreditavam, porque ela era uma ótima atriz. Quando ela sentia que estava preste a botar tudo pra fora, toda a dor e angústia que tinha, ela se trancava dentro de si. Morria sozinha. Mas ela continuava fingindo, continuava agindo como se fosse a pessoa mais feliz do mundo. Mas isso um dia explodiu, e foi nesse dia , que a lua não surgiu, que ela não se aguentou. Enlouqueceu. Saiu da escola de noite, e andou sem rumo pra sei lá onde e veio parar aqui. Uns dizem que ela tinha problemas psicológicos, outros diziam que era louca, mas só eu a conhecia bem pra saber que não era nada disso. Era dor, ela sentia dor. Então ela parou aqui, meio sem rumo, sem noção das coisas.

Sentada na calçada agora ela chorava, se batia , se machucava. Olhava o céu, olhava a rua. Olhou tudo, observou tudo, ainda soluçando de tanto chorar, começou a crise. Crise de existência, crise de carência, crise de solidão. Ela sempre foi sozinha, e já estava cansada de caminhar só. Por isso enlouquecera. Por isso morria sozinha. Mas foi ela quem escolheu assim, levava uma vida miserável, mas tinha tudo o que precisava (ou quase tudo) : tinha casa, roupas novas, mãe, pai, irmãos, cachorro, quarto, carro. Mas ela não tinha amor. Amor próprio, amava as pessoas estranhas, repugnância às pessoas que a amavam, queria aqueles que não podia querer. Amava os outros , não pensava nela. E ela enlouqueceu. Seu espírito indomável se entregou aos braços do mais belo homem, que sem piedade o arrancou e levou consigo. E a deixou-a lá, enlouquecendo. Dizem que ela era linda, dizem que nunca se apaixonava e que era durona demais pra isso. Não se privilegiava dos sentimentos de amor. Sabia viver bem, até ele aparecer. Ainda sentada na calçada, parecia perdida em meio ao negro céu. Eu a observava de minha janela, tive medo de saber o que pensava. Então ela ficou lá, até morrer. Ninguém sabe dizer o que causou sua morte, se foi doença, frio, fome, mas dizem que não foi aquela noite que a matara, mas sim aquela vida que levara. Dizem que ela já estava morta consigo, e que isso era a pior morte que se tinha. E assim morreu Daniela, sem explicações, com muitas contraversões, mas sem opções. Daniela era menina forte, era. Era menina. Daniela se foi.

Emily Cohen

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